As palavras "tecnologia" e "popular" não aparecem frequentemente juntas na lógica de crescimento e acumulação do sistema capitalista. Como tal, vivemos num paradoxo: se por um lado, os computadores multiplicam-se como cogumelos nos nossos pulsos, nos electrodomésticos, nos carros, nas escolas, locais de trabalho e órgãos de governo das nossas cidades e países, por outro, a democracia corrompe-se com este excesso, fortificando as fronteiras, não agora físicas, mas também elas digitais.
Esta tensão entre a expansão tecnológica e a deteriorização democrática advém do atual regime económico que investe o que tem (e o que retira de outros povos e territórios) para cada vez mais áreas da nossa vida quotidiana. Esta expansão tem vindo a perverter o papel da democracia e da força de trabalho humana, tornando-os dependentes da tecnologia digital. O sistema económico apregoa a "transição digital" como um objectivo inerentemente bom [1], associado a uma lógica evolucionista de progresso, sem contraditório ou questionamento, enquanto esconde que o caminho actual de desenvolvimento da tecnologia potencia estados autoritários, promove novas censuras e novas formas de exploração laboral ao mesmo tempo que acelera o esgotamento dos recursos naturais do planeta e as alterações climáticas - promovendo a escassez para muitos povos ao redor do mundo, criando ainda mais desigualdades estruturais e aumentando o fosso entre quem pode e quem não pode.
A maioria de nós continua a dizer "sou um nabo nisto", e há até indícios de que a juventude tem hoje menos conhecimento sobre a forma como funcionam os computadores [2]. Há quem diga que a internet é a invenção mais complexa do ser humano e que ninguém sabe explicar ao certo tudo o que a faz funcionar.
A boa notícia é que há imenso que podemos fazer para recuperar este grande poder das mãos de experts e grandes empresas, para quem realmente dele pode fazer bom uso, as estruturas de base, o povo - e não, não vamos falar sobre números primos, teoria dos anéis e de grupos e da função zeta.
Assim, embalados por um espírito de universidade popular e entre-ajuda, convidamos todas as pessoas — novas e velhas, nabos e experts, bem como toda a diversidade — a encontrar-se, partilhar conhecimento, ouvir, pensar e discutir, a colocar as suas dúvidas, a trazer coisas avariadas e ousar tentar repará-las. A tasca é o sítio perfeito. Só não vale pousar as bebidas junto aos computadores, está bem?
[1] Ver artigo "O fim das utopias? Inovação, tecnologia e desenvolvimento" na revista online Outras Economias
[2] Ver artigo "Kids who grew up with search engines could change STEM education forever", na revista online The Verge (em inglês)
Tecnologia - Derivado do grego tekhne (arte/ofício) e logos (estudo), engloba desde ferramentas simples até sistemas complexos como computadores, inteligência artificial e processos industriais.
Popular - Adjetivo que descreve algo pertencente, relativo ou peculiar ao povo, bem como aquilo que é amplamente conhecido, aceite ou acarinhado pela maioria das pessoas. Pode indicar tradição, baixo custo, ou algo democrático e acessível.